Sonhei que era uma alma!
Por Márcio Wesley
Sonhei que tinha morrido. Não sei como. Não houve acidente, doença, hospital. Não sei nem em que momento aconteceu. Só sabia que eu não estava mais vivo. E o mais estranho é que eu continuava pela terra. Uma alma andando por aí.
As pessoas estavam nas ruas passando de um lado para outro. Eu via todo mundo, mas ninguém me via. Apenas uma senhora conseguiu me ver. Foi a única pessoa que me viu durante o sonho, mas ela não estava com muita paciência para conversar.
Eu estava ali e, ao mesmo tempo, não estava.
Em determinado momento encontrei um amigo que também havia morrido. Conversamos rapidamente. E descobrimos que, naquele estado espiritual, havia uma facilidade enorme para chegar a qualquer lugar. Bastava pensar e, num instante, estávamos lá. Podíamos atravessar o mundo em segundos. Parecia uma liberdade enorme. Mas não era.
Porque faltava uma coisa que eu só percebi naquele momento: sentir as coisas. Eu podia estar em qualquer lugar, mas não podia tomar um banho de mar. De chuveiro. De chuva. Não podia sentir a água no corpo, o vento e o calor do sol. Não podia comer, sentir o cheiro e o gosto.
Não podia abraçar. Não podia conversar com as pessoas. Não podia pegar um instrumento e tocar. Escolher uma música para ouvir. Tudo isso me bateu de uma maneira muito forte.
A gente vive cercado de coisas que parecem banais. A gente está aqui presente, mas existirá um dia em que não existirá mais.
No sonho, eu podia ir para qualquer lugar do mundo. Mas não podia sentir o mundo. E talvez tenha sido isso que mais me assustou quando eu acordei. A gente passa muito tempo preocupado com o que vai comprar, com a casa que quer ter, com o carro, com dinheiro, com coisas que juntamos. E não há nada de errado em conquistar esses objetos.
Só que tudo ficará. Os pertences ficam. A vida é que passa. Talvez a gente esteja tão preocupado em coisas banais que esquecemos de viver.
No sonho, eu não queria coisas. Eu não queria nada material. Nada disso tinha importância. Não queria dinheiro. Eu só queria sentir. Queria um abraço. Queria comer alguma coisa gostosa. Queria sentir cheiros. Queria poder fazer coisas simples que, quanto estamos vivos, parecem tão comuns que nem damos importância.
A gente desperdiça nosso tempo. Ficamos presos em discussões, ressentimentos, orgulho, preocupações com coisas que talvez nem tenham importância daqui alguns anos. Esquecemos de aproveitar quem está conosco, quem está ao nosso lado. O sonho não me deu resposta sobre a morte. Mas me deixou uma sensação muito forte quando acordei.
Estar vivo é uma coisa extraordinária. Enquanto estamos aqui, ainda podemos entrar no mar. Comer uma comida gostosa. Tomar um sorvete. Ler um livro, tocar um instrumento. Participar de um grupo de teatro, dançar. Encontrar os amigos. Ouvir uma música e rir de uma bobagem.
Podemos sentar perto de quem amamos. Podemos abraçar nossos filhos, familiares e nossos amores. Podemos viajar. Podemos dizer aquilo que tantas vezes deixamos para depois.
Depois do sonho, fiquei olhando para tudo isso de outra maneira. Talvez a vida não esteja nas grandes coisas que a gente passa anos tentando conquistar. A bandeira preta do sonho ainda está na minha cabeça. Ela aparecia quando alguém morria. E talvez tenha sido o jeito que meu próprio sonho encontrou de me lembrar de uma coisa que eu já sabia, mas que às vezes esqueço: um dia a nossa bandeira também vai aparecer. Quando esse dia chegar, tudo aquilo que acumulamos continuará aqui. Mas os abraços terão acabado. O gosto, o cheiro e o toque.
Depois desse sonho, eu só consigo pensar em uma coisa: que privilégio é estarmos vivos. E que desperdício seria passar pela vida sem perceber as coisas simples.
Sonhei que era uma alma!
Reviewed by Márcio Wesley
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agosto 14, 2026
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