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MEMÓRIAS DE AREIA BRANCA | Gildete Melo




Não tinha luz elétrica, o candeeiro era usado para alumiar dento de casa, pois do lado de fora a lua e as estrelas cuidavam disso


                         Gildete Melo 



Areia Branca do Sotero guarda elementos da cultura afro brasileira. Assim chamam os nativos mais velhos de nossa comunidade. Era um lugar cheio de dunas de areias brancas e belas palmeiras, lugar cercado pela mata, muito bonito, lembra dona Mauricia 85 anos. Uma localidade de maior extensão territorial cercada pela natureza e areia branca até início dos anos de 1980. 



     Foto ilustrativa



A localidade havia muitos areais e com isso os homens trabalhavam na exploração, numa retirada exaustiva de areia e enchendo inúmeras caçambas. 


O trabalho na roça era constante no plantio de aipim, mandioca,  produção de carvão e na retirada de lenha de metro para o comércio de seu Almiro Pinto que transportava para Ipitanga. 




          Foto ilustrativa 


E da produção de beiju que eram vendidos nas feiras do Curtume; São Joaquim; Sete Portas; Liberdade; Largo do Tanque; São Caetano e distrito de Ipitanga. Além do beiju e carvão vendiam também folhas medicinais e frutas da região: mangaba, cajá, manga, jaca, carambola e pitanga. Sotero era um antigo morador, que morava em uma fazenda no Mussungo (hoje conhecido como Ciamar). Eram três irmãos: Sotero, Valério e Beca, explica  dona Nenzinha de 91 anos. 


A Comunidade de Areia Branca se formou no entorno dos engenhos da Japara propriedade da família Sá, Conceição da Quingoma e Engenho da Quingoma. 



Capelão, Tabuleiro, Barro Duro, Mussungo, Capiarara, Jambeiro e Cachoeira faziam parte do distrito de Areia Branca 


A comunidade formada em sua maioria pelo povo preto que moravam em casas chamadas “Casa de lombo de boi”. Residências de taipa coberta de palha e piso de barro batido, na frente faziam bancos e sentavam  para prosear e fumar cachimbo. O candeeiro iluminava a roda de conversa. "As mulheres jogavam areia branca e espalhavam folhas de pitanga para enfeitar as casas em tempos de festas", recorda dona Detinha Sambadeira, 78 anos. 

 


Vivências...


Dona Maurícia conta que a roupa era lavada na fonte, passava pelo quarador, para depois, enxaguar. As roupas engomadas eram passadas com ferro à carvão.


As carnes eram moqueadas e salgadas, depois colocadas num fumeiro para conservar. A água para beber ficavam nos porrões e nas moringas. Para lavar pratos em casa tinha o jirau (estrutura feita com quatro furquias de mais ou menos um metro) onde era colocada a bacia. Para varrer o terreiro usava o cangaço feito com murici. 



          Imagem ilustrativa 


A comunidade se movimenta sempre no entorno de uma fonte de água. Era comum vermos plantações próximas a essas áreas. Nas fontes as mulheres lavavam e quaravam as roupas, usavam as pedras para bater as roupas, o bagaço era feito de palha de nicuri usado para esfregar as roupas, prato e também na hora do banho para tirar o lodo do corpo. 


Para arear panela era folha de cajueiro brabo que tirava o carvão das panelas. Pois a comida era preparada no fogão a lenha.

 


Colchão para dormir... 


Saindo de Areia Branca, passando pela Cruz Grande, onde hoje é a rótula da Ceasa, seguia-se para o Tabuleiro, local onde os nativos retiravam capim de boa qualidade para fazer colchão.  




               Barragem do Jambeiro




Jambeiro, Capelão, Barro Duro e Quingoma pertenciam ao distrito de Areia Branca. Barro Duro passou por muitas mudanças com a chegada de grandes empreendimentos do Programa Minha Casa Minha Vida, também sofre com a divisão territorial e a falta de políticas públicas. 


O progresso poluiu os rios e desencadeou o desmatamento. Jambeiro possui a barragem do rio Joanes que capta água para o município de Salvador.  



Quilombo... 



          Samba de roda do Quilombo 




O Quilombo Quingoma, núcleo de resistência, lugar de lutas, trabalho árduo e conservação de nossa herança ancestral desde 1569. Em 2015 recebeu a certificação da Fundação Palmares. Possuía dois engenhos que se destacaram, o Conceição da Quingoma e Engenho da Quingoma, além das olarias e usinas de farinha. 


Muitas mulheres que moravam em Areia Branca ficavam aquilombadas, para trabalharem na usina de farinha, explica dona Nenzinha 91 anos, que recebia 5 mil réis por dia. Saiam de Areia Branca na segunda e só retornavam no sábado a tarde, raspando mandioca.




Ancestralidade...


Tratando de ancestralidade espiritual, Porfírio de Ogum, pai de santo e pequeno proprietário das terras do antigo Engenho, tinha seu terreiro onde realizava grandes festas e toda população dos arredores de Quingoma participava. A partir do sincretismo, os festejos de São José têm mais de 100 anos, conhecido como o Padroeiro dos Trabalhadores. A festividade encerrava com samba de roda, que resisti até os dias de hoje. 




           Samba de roda Renascer de Quingoma  



O Samba de roda Renascer de Quingoma, tradição no quilombo carrega uma variante do samba com raízes africanas, reunindo música, poesia e dança. Formado por homens, mulheres, jovens e crianças. As matriarcas ensinam a tradição com toda sabedoria herdada pelos seus ancestrais formando um círculo. Algumas pessoas tocam pandeiros, pratos com colheres, agogô, berimbau, chocalhos e atabaques. Além das cantorias e das palmas. No interior dessa roda as pessoas fazem a evolução, coisa linda de se ver. 


O grupo participa ativamente do ecoturismo de base comunitária atividade de grande relevância e agora de forma mais estruturada. Atualmente 578 famílias vivem em uma área de 1.284 hectares. O governo quer reduzir a área para apenas 285 hectares, área que não contempla todas as famílias. 



           Quilombo do Quingoma | Rejane Pereira, liderança da comunidade 



Os moradores do quilombo mantém suas tradições e história através da oralidade e resiste a falta de políticas públicas, desassistidos de transporte, posto de saúde e uma escola que esteja no conceito das tradições quilombolas. O dia 9 de setembro é uma data celebrada, “Dia de Resistência”. 



Em 9 de setembro de 1893 houve um grande massacre no quilombo, muitas pessoas morreram tentando fugir, outros conseguiram fugir para Areia Branca e outras regiões, dando ínicio a outras comunidades 



A saudosa Andresa de Melo, uma das moradoras mais antigas de Areia Branca, nasceu no ano de 1876 em Quingoma. Filha de Vitória de Melo e Cezário que foram escravizados e trabalharam nos engenhos em Quingoma. Eles trouxeram para a comunidade de Areia Branca o conhecimento da produção de beiju que perpassa por várias gerações e resiste até hoje através de suas netas: dona Dadá de Portão, Pelé e dona Zizi em Areia Branca. Andresa faleceu no ano de 1964 e deixou um grande legado. Foi filha única e teve 16 filhos, cada um com sua missão. Almerinda uma das filhas era parteira, responsável pelo nascimento de muita gente. 


No Mussungo tinha a casa de farinha da finada Paca e na Mãe Domingas tinha uma parte do rio Joanes onde se pescava Eiú; Tucunaré; Tiranh; Traíra; Peixe preto e dentre outros. Na mata caçava teiú, tatu, raposa, tamanduá e outros animais, relata seu Domingos Melo, 63 anos. 






Atualmente a comunidade enfrenta muitos problemas que são as divisões de terras, pois, parte pertence ao município de Lauro de Freitas e parte a Salvador e a especulação imobiliária acabando com a nossa fauna, flora e aterramento dos rios.




Manifestações Culturais, Herança Ancestral







Epfânio de Melo nasceu e se criou na comunidade. Aos 73 anos relatou (em junho de 2013), que seu tio Cecílio brincava com o boi na festa de Reis em 6 de janeiro. Três dias de festa, o boi saía de uma rua atrás da Igreja Nossa Senhora da Conceição, passava de casa em casa, os donos das casas ofereciam comida e bebidas. Homem, mulher, menino e menina, todo mundo acompanhava.


Outras festas também aconteciam nas casas das pessoas mais velhas. O saudoso Cosme tocava muita viola e seu pai Jino (falecido) também. O samba era até o sol raiar. Para dona Mauricia o Terno de Reis era a festa mais esperada do ano.



Ô de casa ô de fora

Maria vai ver quem é

É o tocador de reis

Quem mandou foi São José

 



Principais casas de farinha da região... 


- Casa de farinha de Paca;
- Casa de farinha de Pomba;
- Casa de farinha dona Caixinha;
- Casa de farinha Dona Linga;
- Casa de farinha de seu Rusário;
- Casa de farinha de Ambrósia;
- Casa de farinha de Belequinha;
- Casa de farinha dona Candoca;
- Casa de farinha de Santinha;
- Casa de farinha de Mariá;
- Casa de farinha de dona Loura;
- Casa de farinha de Raimundinho;
- Casa de farinha de seu Virgílio;
- Casa de farinha da Santissíma


A casa de farinha de seu Edinho era a mais moderna, com motor usado por muitos moradores. Atualmente temos duas casas de farinha produzindo, a de Risalva Sales (Dona Zizi) e a de Rosilda Sales (Pelé).

 



Religiosidade...






Pedro Preto foi um dos primeiros Pais de Santo da comunidade, o terreiro ficava no Tuntun, lugar de muita areia alva e pés de cajueiro rasteiro, onde hoje fica o Vale do Amanhecer. Porfiro na Quingoma, Pedro Preto em Areia Branca, Tatamba na Capiarara e Capitulino no Jambeiro. Cada um tinha seu terreiro.


O terreiro da finada Regina e Zé de Ogum, também exerceram um papel importante para manutenção da religião do candomblé. Padre Monteiro, foi o primeiro padre que rezou a missa na comunidade. Quem ia à igreja, também participava das festas nos terreiros. 


A data de Nossa Senhora da Conceição era muito festejada. Um barracão próximo da igreja, perto de Roxa, era enfeitado com palhas para o samba de roda. Barracas de palhas eram feitas no entorno da igreja para vender mingau, roupas, bolos e dentre outras coisas.



             Imagem ilustrativa 


Também ocorria no mês de Maria (maio), a novena e as trezenas de Santo Antônio até São Pedro, tinha bastante festa. Diversos terreiros surgiram com o passar do tempo por termos uma vasta mata e árvores consideradas sagradas para religião de matriz africana, além dos rios para realização de rituais, propiciando o crescimento de terreiros na região. 


Hoje temos uma diversidade de igrejas e religiões, mas as religiões de matriz africana resistem. O terreiro Ilê Axé Opô Ajagunã em 2005 foi tombado pelo Instituto de Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia.



 

Projeto Grão de Areia - Beijuzeiras de Areia Branca...



 

 

A Prefeitura de Lauro de Freitas sancionou no diário oficial a Lei Nº 1.815/2019, declarando Patrimônio Cultural Imaterial do Município de Lauro de Freitas, as Beijuzeiras de Areia Branca


Este trabalho foi desenvolvido numa perspectiva sociocultural por entendermos que a aprendizagem é o processo pelo qual o indivíduo adquire conhecimento, a partir de seu contato com a realidade, o meio ambiente e as pessoas. 


     Gildete Melo | coordenadora do Projeto Grão de Areia 

O Projeto Grão de Areia - Beijuzeiras de Areia Branca tem como finalidade trilhar caminhos para o resgate da memória coletiva e construção da identidade territorial   

 


Esta iniciativa pretende contribuir de forma significativa no regate das manifestações culturais que fazem parte de raízes de matriz africana na comunidade. No ano de 2009 iniciou o trabalho de pesquisa, em 2016, passou a ser executado.


A História da comunidade de Areia Branca não se encontra nos livros, mas na memória das pessoas mais velhas. Entretanto, compreendemos que as culturas tradicionais e as manifestações culturais funcionam como uma escola da vida, registrando também a história de vida de uma comunidade.








Pesquisadora, historiadora, escritora e coordenadora do Projeto Grão de Areia / Beijuzeiras de Areia Branca - GILDETE MELO, pesquisa publicada no livro "DE IPITANGA  A LAURO DE FREITAS: NARRATIVAS HISTÓRICAS DO POVO IPITANGUENSE".  O livro esta disponível na plataforma digital Amazon - https://www.amazon.com.br/Ipitanga-Lauro-Freitas-narrativas-ipitanguense-ebook/dp/B08BTX6RC5

Quem quiser adquirir o livro impresso  
(71) 98701-7643 ou 99202-4378   





Márcio Wesley | DRT/BA 5469
Jornalista com MBA em Comunicação e 
Semiótica na linguagem artística 



MEMÓRIAS DE AREIA BRANCA | Gildete Melo Reviewed by Márcio Wesley on julho 30, 2021 Rating: 5

Um comentário:

  1. Mestre Márcio, só agradeço a tu por da visibilidade a nossa História. Choro de alegria em saber que essa memória não será mais apagada. Agradecida!

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