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Beijuzeiras de Areia Branca preservam a identidade cultural de Lauro de Freitas






Por Márcio Wesley

Ao longo da minha trajetória como jornalista, pesquisador e defensor da memória cultural de Lauro de Freitas, tenho observado que um dos maiores desafios do município é preservar sua própria história. Muito do que somos ainda não está registrado em livros ou documentos oficiais. 

Nossa identidade continua viva graças aos mestres e mestras da cultura popular, aos pesquisadores, educadores e às comunidades que mantêm seus saberes.


Cada pesquisa produzida sobre o município amplia o conhecimento sobre nossa identidade e ajuda a preservar um patrimônio que pertence a todos nós.

Infelizmente enfrentamos a ausência de políticas públicas permanentes voltadas à preservação da memória histórica e cultural. 

Precisamos de investimentos em pesquisa, documentação, educação patrimonial, formação de acervos e valorização dos mestres e mestras da cultura popular. 

Enquanto isso não acontece de forma estruturada, esse trabalho continua sendo realizado pelo esforço de pessoas comprometidas com a história do município.


Foi por reconhecer a importância desse compromisso que recebi com entusiasmo a pesquisa do professor José Gonçalves de Almeida Júnior, mestrando do Programa de Mestrado em Educação Profissional e Tecnológica do IFBA. Seu estudo sobre as Beijuzeiras de Areia Branca registra histórias, cantigas, fotografias e saberes ancestrais preservados por mulheres que transformaram o beiju em muito mais do que um alimento. 

Elas construíram um símbolo de identidade, pertencimento e resistência que faz parte da história de Lauro de Freitas. Nesta entrevista, o professor compartilha comigo os principais resultados de sua pesquisa, fala sobre o protagonismo das mulheres de Areia Branca e reforça a necessidade de reconhecer as Beijuzeiras como um dos mais importantes patrimônios culturais vivos do nosso município.


Professor José Gonçalves Júnior 


Entrevista...

Professor José Gonçalves, durante sua pesquisa, qual foi a principal descoberta sobre as Beijuzeiras de Areia Branca?

Foi perceber que a história da comunidade não está apenas nos documentos oficiais. Ela permanece viva nas narrativas das pessoas, nas cantigas, nas rodas de samba, na produção do beiju e nas lembranças transmitidas entre gerações. São memórias preservadas principalmente pelas mulheres da comunidade.

Quem são essas mulheres que mantêm viva essa memória?

São verdadeiras guardiãs da identidade cultural de Areia Branca. Durante a pesquisa, nomes como Dona Detinha, Dona Maria de Moça, conhecida como Maria Bailá, Dona Zizi, Dona Dadá, Dona Miru, Dona Creuza, Gildete Melo e tantas outras apareceram constantemente como referências de conhecimento, tradição e pertencimento.




A pesquisa também revelou diferenças entre gerações?

Sim. As mulheres mais idosas viveram intensamente a rotina das casas de farinha, a fabricação do beiju e as dificuldades econômicas daquele período. Já as mais jovens preservam esse legado por meio das manifestações culturais, especialmente o samba, a música e outras expressões artísticas.




Existe alguma mudança que chamou sua atenção nesse processo de continuidade dessa tradição?

Sem dúvida. Uma jovem entrevistada contou que sua principal atuação acontece no samba e no toque do atabaque. Isso demonstra uma transformação importante. Em muitos contextos afro brasileiros, o toque do atabaque era tradicionalmente associado aos homens.

Entre as Beijuzeiras de Areia Branca, as mulheres ocupam esse espaço naturalmente, reafirmando seu protagonismo na preservação da cultura.



Dona Melândia ocupa um lugar de destaque na sua pesquisa. O que representa sua trajetória?

Ela representa a força da mulher negra empreendedora. Sustentou sua família produzindo beiju e vendendo acarajé, além de atuar como percussionista nas apresentações do grupo.

Sua trajetória demonstra como trabalho, cultura e resistência caminham juntos.



A pesquisa também recupera a memória de Andresa de Melo. Qual sua importância para essa história?

Os relatos apontam Andresa de Melo como responsável por introduzir técnicas importantes na produção do beiju na comunidade. Também surgem referências de que sua mãe, Vitória de Melo, era indígena. Mais do que buscar comprovações históricas definitivas, essas narrativas revelam como a própria comunidade constrói sua identidade e fortalece seus laços de pertencimento.



Seu trabalho não ficou apenas na universidade. Houve um retorno para a comunidade?

Esse era um compromisso fundamental. Produzimos uma cartilha educativa reunindo relatos, fotografias, cantigas, sambas e reflexões construídas durante a pesquisa. O objetivo é fortalecer a educação patrimonial e fazer com que esses conhecimentos circulem entre as novas gerações.


Depois de toda essa pesquisa, como define as Beijuzeiras de Areia Branca?

Elas são muito mais do que produtoras de um alimento tradicional. São trabalhadoras, sambadeiras, compositoras, educadoras populares, guardiãs da memória e protagonistas de uma experiência construída por mulheres ao longo de gerações.



Que mensagem essa pesquisa deixa para Lauro de Freitas?

Vivemos um tempo em que muitas histórias locais acabam sendo esquecidas pela velocidade das redes sociais. As Beijuzeiras de Areia Branca mostram exatamente o contrário. A memória permanece viva quando existem pessoas dispostas a cantar, contar e compartilhar com aqueles que vêm depois.

Reconhecer as Beijuzeiras de Areia Branca é reconhecer um dos maiores patrimônios vivos de Lauro de Freitas. Mais do que um reconhecimento legal, elas representam a identidade de um povo que continua transformando trabalho, cultura e memória em formas de existência, educação e resistência.

José Gonçalves de Almeida Júnior é professor, morador de Lauro de Freitas e mestrando do Programa de Mestrado em Educação Profissional e Tecnológica do IFBA. 

Sua pesquisa é voltada para a valorização da memória, da cultura popular e da educação patrimonial, contribuindo para preservar a história e fortalecer a identidade cultural de nossa cidade. 

As imagens que estão ilustrando a entrevista é da cartilha produzida pelo professor Júnior, que ainda não foi disponibilizada ao público.

No momento o professor está em busca de apoio para produção. O projeto gráfico da cartilha e as ilustrações são de Tainá Moraes.


Márcio Wesley, jornalista, músico, professor e 
Conselheiro municipal de cultura na cadeira   
do Patrimônio Cultural | Instagram @marciowesleycnery

         





Beijuzeiras de Areia Branca preservam a identidade cultural de Lauro de Freitas Reviewed by Márcio Wesley on julho 16, 2026 Rating: 5

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