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O som que conecta corpo, alma e a natureza

Por Márcio Wesley






Este artigo não nasce da visão de um pesquisador acadêmico da música, nem pretende transformar experiências particulares em verdades universais. É apenas o relato prático de um músico autodidata que passou anos ouvindo, testando, errando, mudando afinações e percebendo como o som interfere nas pessoas e nos ambientes. Talvez, para alguns, nada disso faça sentido.


Mas essa percepção mudou profundamente a minha forma de entender a conexão através da música, especialmente da bateria. Não falo sobre tocar de maneira virtuosa ou ser aquele músico impressionante que admiramos nos palcos. O que me interessa é outra coisa: algo íntimo, quase invisível, que acontece dentro das minhas pequenas produções alternativas.


Nunca me enxerguei como um músico “sideman” ou um camaleão musical, embora admire quem siga esse caminho. O que sempre me moveu foi participar de projetos nos quais também atuo como produtor, sobretudo trabalhos fora da lógica do mercado e dos sucessos fabricados pela mídia.


Gosto da liberdade total: escolher o set, adaptar timbres, elementos percussivos, alterar dinâmicas e permitir que a música respire de forma diferente a cada apresentação, mesmo quando as canções já estão batidas. Sempre senti que existe troca de energia entre músicos, público e ambiente, interferindo diretamente na forma como a arte acontece. É justamente essa liberdade que me mantém conectado à arte.


Por muito tempo, pensei que a sensação de paz e fluidez que experimentava ao tocar fosse apenas uma impressão pessoal. Sempre gostei de ouvir uma bateria mais grave e aveludada, sinto neste timbre algo quase espiritual que integrar as pessoas com a música. Movido pela curiosidade de jornalista, decidi investigar melhor o tema. Para minha surpresa, descobri que parte dessas percepções encontra respaldo na ciência.


Quem toca na noite conhece bem os desafios. Em apresentações intimistas, com o público muito próximo, a acústica frequentemente se transforma numa batalha. Confesso que minha assinatura sempre esteve mais ligada à dinâmica do que à virtuose. Conversas paralelas, liquidificadores preparando drinks, copos se chocando e talheres tilintando pareciam disputar espaço com a música, especialmente em apresentações instrumentais com o grupo Bago de Jazz.



Minha resposta para esse “caos acústico” foi unir dinâmica a uma afinação grave, harmoniosa e controlada. Em vez de disputar volume com o ambiente, comecei a usar a frequência para envolver o espaço. O som deixou de agredir meus ouvidos e passou, em muitos momentos, a acolher.


Essa busca por conforto acústico também me levou a experimentar diferentes pratos de bateria. Passei a optar por modelos maiores: 18”, 19” e 21” (Domene Cymbals), todos com assinatura sonora mais escura e encorpada. Também gosto muito da presença do Bell, explorando aquele som de sino mais definido. Para mim foi uma escolha importante. 




Em vez do brilho excessivo e do ataque cortante dos pratos muito agudos, os pratos grandes e escuros entregam um colchão sonoro mais aveludado, com menos harmônicos agressivos aos meus ouvidos. O Bell entra como ponto de clareza e definição rítmica, sem romper o clima.


Mais recentemente, com o coletivo Aîuba, tive a oportunidade de experimentar duas abordagens bastante distintas. Na primeira configuração, utilizei tons mais agudos, com bastante ataque e projeção. O resultado tinha profundidade e dinâmica. Porém, foi na segunda experiência, usando tom de 12” e surdo de 14” em afinação médio-grave, que a verdadeira fluidez apareceu como uma luz na minha alma. A sensação de tranquilidade e conexão foi imediata entre os músicos e as pessoas mais próximas do palco.


Para ampliar essa experiência, os instrumentos harmônicos da moçada do coletivo (guitarras, violão e baixo), são afinados em 432 Hz. Embora o debate científico sobre 432 Hz e 440 Hz ainda esteja longe de um consenso definitivo, alguns estudos apontam efeitos positivos relacionados ao relaxamento, cura e à percepção de bem-estar. Ziggy Marley gravou recentemente seu álbum Brightside em 432 Hz e destacou em entrevista que essa frequência ressoa melhor com o corpo e a natureza. “O mundo precisa de uma mudança de frequência em vários níveis. A música em 432 Hz possui propriedades terapêuticas e de cura”. – Ziggy Marley.   


Pesquisas conduzidas pelos italianos Renata Calamassi (enfermeira e pesquisadora) e Gianpaolo Pomponi (músico) sugerem que músicas afinadas em 432 Hz podem provocar leve redução da frequência cardíaca e maior sensação de conforto auditivo em determinados ouvintes. Na minha opinião a combinação dessa harmonia com a bateria médio-grave cria uma atmosfera de bem-estar inexplicável. 

   

O efeito vibroacústico


Ao contrário das frequências agudas, as médio-graves, geralmente, possuem grande energia mecânica e comprimentos de onda mais longos. Elas não são apenas ouvidas. São sentidas fisicamente no peito, no abdômen e nos músculos.


Na musicoterapia e na medicina integrativa (abordagem de saúde que combina a medicina convencional com terapias complementares, tratando o indivíduo como um todo: físico, mental, emocional e espiritual), esse fenômeno é estudado através da vibroacústica. Quando um tambor médio-grave ressoa, ele atua diretamente sobre o sistema nervoso autônomo, ajudando a neutralizar tensões e ruídos externos.


O pesquisador Lee Bartel, ligado ao Music and Health Science Research Collaboratory da Universidade de Toronto, descreve esse processo ao afirmar que vibrações de baixa frequência podem estimular mecanicamente mecanorreceptores do corpo e influenciar o nervo vago, contribuindo para estados de relaxamento e redução do estresse.


Os mecanorreceptores são sensores naturais responsáveis pela percepção de toque, pressão e vibração. Já o nervo vago possui papel importante na regulação do equilíbrio fisiológico e emocional, podendo ser estimulado por respiração, canto e frequências sonoras.


Conforto psicoacústico


Sons excessivamente estridentes ou carregados de harmônicos agudos tendem a colocar o cérebro em estado de alerta, uma resposta evolutiva associada à sobrevivência. Já os timbres médio-graves costumam produzir o efeito contrário: sensação de acolhimento e estabilidade acústica.


Percebi que quando o baterista reduz o ataque agressivo e privilegia o decaimento suave dos tambores e pratos, o cérebro interpreta o ambiente como um espaço mais seguro e confortável. O neurocientista cognitivo Daniel Levitin, autor de This Is Your Brain on Music, explica que o cérebro humano busca padrões previsíveis e estabilidade sonora no ambiente. Frequências mais contínuas e menos agressivas tendem a favorecer estados de relaxamento e redução de hiperatenção auditiva.


Conexão ancestral


Essa sensação de acolhimento talvez dialogue diretamente com a nossa ancestralidade. A etnomusicologia aponta que a vibração dos tambores graves remete ao primeiro ambiente acústico da experiência humana: o útero materno. Ali, os batimentos cardíacos da mãe chegam ao bebê como pulsações graves, constantes e protetoras. Não por acaso, que muitas culturas ancestrais utilizam tambores em rituais de cura, celebração e transe coletivo.


Essa situação acústica na bateria aparece em muitas gravações e produções.   Um exemplo interessante foi a sessão de gravação realizada pela Trama no YouTube, regravando a voz de Elis Regina em novos arranjos de estúdio. A bateria afinada com timbre médio-grave sustentando a atmosfera sem competir com a voz ou com os demais instrumentos. Vídeo disponível abaixo.





Conclusão


Muitas vezes, a intuição prática antecede a certificação da pesquisa, levando as pessoas a certificarem a teoria através da ciência. Quando utilizo uma bateria mais aveludada, combinada a pratos “dark” escuros e maiores, sinto uma conexão mais profunda entre corpo, ambiente e música. Não se trata apenas de estética sonora ou de seguir tendências contemporâneas ligadas ao universo worship, com muitas notas rápidas. Estou falando de uma atmosfera dinâmica, emotiva e com “espiritualidade”.


No meu caso, existe uma sensação real de bem-estar compartilhado entre quem toca e quem escuta. Como se o tambor e os pratos, antes mesmo de serem instrumentos rítmicos, são também ferramentas de arte, acolhimento, equilíbrio e cura.


  Márcio Wesley 

  Jornalista | MBA em comunicação |

  Licenciatura em artes | DRT/BA 5469 



O som que conecta corpo, alma e a natureza Reviewed by Márcio Wesley on maio 19, 2026 Rating: 5

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