O som que conecta corpo, alma e a natureza
Este artigo não nasce da visão de um pesquisador acadêmico da música, nem pretende transformar experiências particulares em verdades universais. É apenas o relato prático de um músico autodidata que passou anos ouvindo, testando, errando, mudando afinações e percebendo como o som interfere nas pessoas e nos ambientes. Talvez, para alguns, nada disso faça sentido.
Mas essa percepção mudou profundamente a minha
forma de entender a conexão através da música, especialmente da bateria. Não
falo sobre tocar de maneira virtuosa ou ser aquele músico impressionante que
admiramos nos palcos. O que me interessa é outra coisa: algo íntimo, quase
invisível, que acontece dentro das minhas pequenas produções alternativas.
Nunca me enxerguei como um músico “sideman”
ou um camaleão musical, embora admire quem siga esse caminho. O que sempre me
moveu foi participar de projetos nos quais também atuo como produtor, sobretudo
trabalhos fora da lógica do mercado e dos sucessos fabricados pela mídia.
Gosto da liberdade total: escolher o set, adaptar
timbres, elementos percussivos, alterar dinâmicas e permitir que a música
respire de forma diferente a cada apresentação, mesmo quando as canções já
estão batidas. Sempre senti que existe troca de energia entre músicos, público
e ambiente, interferindo diretamente na forma como a arte acontece. É justamente
essa liberdade que me mantém conectado à arte.
Por muito tempo, pensei que a sensação de paz e
fluidez que experimentava ao tocar fosse apenas uma impressão pessoal. Sempre gostei
de ouvir uma bateria mais grave e aveludada, sinto neste timbre algo quase
espiritual que integrar as pessoas com a música. Movido pela curiosidade de
jornalista, decidi investigar melhor o tema. Para minha surpresa, descobri que
parte dessas percepções encontra respaldo na ciência.
Quem toca na noite conhece bem os desafios. Em
apresentações intimistas, com o público muito próximo, a acústica
frequentemente se transforma numa batalha. Confesso que minha assinatura sempre
esteve mais ligada à dinâmica do que à virtuose. Conversas paralelas,
liquidificadores preparando drinks, copos se chocando e talheres tilintando
pareciam disputar espaço com a música, especialmente em apresentações
instrumentais com o grupo Bago de Jazz.
Minha resposta para esse “caos acústico” foi unir
dinâmica a uma afinação grave, harmoniosa e controlada. Em vez de disputar
volume com o ambiente, comecei a usar a frequência para envolver o espaço. O
som deixou de agredir meus ouvidos e passou, em muitos momentos, a acolher.
Essa busca por conforto acústico também me levou a experimentar diferentes pratos de bateria. Passei a optar por modelos maiores: 18”, 19” e 21” (Domene Cymbals), todos com assinatura sonora mais escura e encorpada. Também gosto muito da presença do Bell, explorando aquele som de sino mais definido. Para mim foi uma escolha importante.
Em vez do brilho excessivo e do ataque
cortante dos pratos muito agudos, os pratos grandes e escuros entregam um
colchão sonoro mais aveludado, com menos harmônicos agressivos aos meus ouvidos.
O Bell entra como ponto de clareza e definição rítmica, sem romper o clima.
Mais recentemente, com o coletivo Aîuba, tive a
oportunidade de experimentar duas abordagens bastante distintas. Na primeira
configuração, utilizei tons mais agudos, com bastante ataque e projeção. O
resultado tinha profundidade e dinâmica. Porém, foi na segunda experiência, usando
tom de 12” e surdo de 14” em afinação médio-grave, que a verdadeira fluidez
apareceu como uma luz na minha alma. A sensação de tranquilidade e conexão foi
imediata entre os músicos e as pessoas mais próximas do palco.
Para ampliar essa experiência, os instrumentos
harmônicos da moçada do coletivo (guitarras, violão e baixo), são afinados em
432 Hz. Embora o debate científico sobre 432 Hz e 440 Hz ainda esteja longe de
um consenso definitivo, alguns estudos apontam efeitos positivos relacionados
ao relaxamento, cura e à percepção de bem-estar. Ziggy Marley gravou recentemente seu álbum Brightside em
432 Hz e destacou em entrevista que essa frequência ressoa melhor com o
corpo e a natureza. “O mundo precisa de uma mudança de frequência em vários
níveis. A música em 432 Hz possui propriedades terapêuticas e de cura”. – Ziggy
Marley.
Pesquisas conduzidas pelos italianos Renata Calamassi (enfermeira e pesquisadora) e Gianpaolo Pomponi (músico) sugerem que músicas afinadas em 432 Hz podem provocar leve redução da frequência cardíaca e maior sensação de conforto auditivo em determinados ouvintes. Na minha opinião a combinação dessa harmonia com a bateria médio-grave cria uma atmosfera de bem-estar inexplicável.
O efeito vibroacústico
Ao contrário das frequências agudas, as médio-graves,
geralmente, possuem grande energia mecânica e comprimentos de onda mais longos.
Elas não são apenas ouvidas. São sentidas fisicamente no peito, no abdômen e
nos músculos.
Na musicoterapia e na medicina integrativa (abordagem de saúde que combina a medicina convencional com
terapias complementares, tratando o indivíduo como um todo: físico, mental,
emocional e espiritual), esse fenômeno é estudado através
da vibroacústica. Quando um tambor médio-grave ressoa, ele atua diretamente
sobre o sistema nervoso autônomo, ajudando a neutralizar tensões e ruídos
externos.
O pesquisador Lee Bartel, ligado ao Music and
Health Science Research Collaboratory da Universidade de Toronto, descreve
esse processo ao afirmar que vibrações de baixa frequência podem estimular
mecanicamente mecanorreceptores do corpo e influenciar o nervo vago,
contribuindo para estados de relaxamento e redução do estresse.
Os mecanorreceptores são sensores naturais responsáveis
pela percepção de toque, pressão e vibração. Já o nervo vago possui papel
importante na regulação do equilíbrio fisiológico e emocional, podendo ser
estimulado por respiração, canto e frequências sonoras.
Conforto psicoacústico
Sons excessivamente estridentes ou carregados de
harmônicos agudos tendem a colocar o cérebro em estado de alerta, uma resposta
evolutiva associada à sobrevivência. Já os timbres médio-graves costumam
produzir o efeito contrário: sensação de acolhimento e estabilidade acústica.
Percebi que quando o baterista reduz o ataque
agressivo e privilegia o decaimento suave dos tambores e pratos, o cérebro
interpreta o ambiente como um espaço mais seguro e confortável. O
neurocientista cognitivo Daniel Levitin, autor de This Is Your Brain on Music,
explica que o cérebro humano busca padrões previsíveis e estabilidade sonora no
ambiente. Frequências mais contínuas e menos agressivas tendem a favorecer
estados de relaxamento e redução de hiperatenção auditiva.
Conexão ancestral
Essa sensação de acolhimento talvez dialogue
diretamente com a nossa ancestralidade. A etnomusicologia aponta que a vibração dos
tambores graves remete ao primeiro ambiente acústico da experiência humana: o
útero materno. Ali, os batimentos cardíacos da mãe chegam ao bebê como
pulsações graves, constantes e protetoras. Não por acaso, que muitas culturas
ancestrais utilizam tambores em rituais de cura, celebração e transe coletivo.
Essa situação acústica na bateria aparece em muitas
gravações e produções. Um exemplo interessante foi a sessão de
gravação realizada pela Trama no YouTube, regravando a voz de Elis Regina em
novos arranjos de estúdio. A bateria afinada com timbre médio-grave sustentando
a atmosfera sem competir com a voz ou com os demais instrumentos. Vídeo disponível
abaixo.
Conclusão
Muitas vezes, a intuição prática antecede a certificação
da pesquisa, levando as pessoas a certificarem a teoria através da ciência. Quando
utilizo uma bateria mais aveludada, combinada a pratos “dark” escuros e maiores,
sinto uma conexão mais profunda entre corpo, ambiente e música. Não se trata
apenas de estética sonora ou de seguir tendências contemporâneas ligadas ao
universo worship, com muitas notas rápidas. Estou falando de uma atmosfera
dinâmica, emotiva e com “espiritualidade”.
No meu caso, existe uma sensação real de bem-estar
compartilhado entre quem toca e quem escuta. Como se o tambor e os pratos,
antes mesmo de serem instrumentos rítmicos, são também ferramentas de arte, acolhimento,
equilíbrio e cura.
Márcio Wesley
Jornalista | MBA em comunicação |
Licenciatura em artes | DRT/BA 5469
Reviewed by Márcio Wesley
on
maio 19, 2026
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