A dois metros de Michael Jackson
Por Márcio Wesley
Em 1996, eu tinha 22 anos e trabalhava no solo da Varig, no aeroporto de Salvador. Era mais um dia de trabalho, ou pelo menos parecia. A rotina de pista, cheiro de querosene de aviação, barulho das turbinas e o vai e vem de gente.
Salvador era o foco com o Olodum e seus tambores. No centro de tudo, o rei da música pop, Michael Jackson, que veio gravar o clipe da canção: "They Don't Care About Us". As gravações aconteceram no Pelourinho e também na comunidade de Santa Marta, no Rio de Janeiro.
Essa produção ganhou destaque não só pela presença de um dos maiores artistas do mundo, mas também pela força da mensagem social presente na música, que denuncia desigualdade, racismo e a violência.
No aeroporto, o clima era de responsabilidade. A orientação era clara: discrição. Nada de aproximação. Éramos parte de uma engrenagem que precisava funcionar sem interferência, mesmo com a presença do rei.
Naquele tempo, não existia celulares modernos. O que a gente vivia, guardava na memória. O aeroporto ainda não tinha ponte de embarque. Eram as escadinhas de rodas ou caminhões escadas no contato direto com a pista e passageiros. E lá em cima, na sacada do antigo aeroporto uma multidão.
Gente gritando, tentando ver, reconhecer, tirar fotos (máquinas de filme) e levar um instante daquele momento.
Michael Jackson passou a menos de dois metros de mim. No meu plantão. Calmamente, estava usando uma máscara cirúrgica, balançou a cabeça cumprimentando educadamente. No vôo seguiram apenas sua equipe de produção e a gloriosa jornalista Glória Maria, fazendo cobertura especial para o Fantástico.
O avião, um Boeing da Varig 737-200, que fazia o trecho entre Salvador e Rio, partiu levando consigo o artista que, por alguns dias, colocou o Brasil e a Bahia no centro do mundo.
Eu não tenho foto desse momento. Mas tenho a lembrança nítida de onde eu estava, do que eu sentia e da proximidade silenciosa com um artista genial.
Filme Michael
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Anos depois, me vejo no cinema diante do filme Michael. O que aparece na tela não é só o retrato de um artista grandioso.
Um menino, filho, irmão e um ser humano atravessado por uma relação difícil com o pai, marcada por cobrança excessiva, episódios de violência e controle.
Ainda assim, o filme encontra outros caminhos. Tem música, leveza e passagens que arrancam sorrisos e uma narrativa que nos envolve.
A fotografia chama atenção. Os cenários são bem construídos, os figurinos ajudam a contar o tempo. Há cenas com animais, lembrando um lado afetivo de Michael que muita gente conhece.
Os carros antigos, os detalhes de época, tudo contribui para criar um ambiente com atores sustentando essa construção.
O Michael criança é interpretado lindamente por Juliano Krue Valdi, enquanto a fase adulta ganha corpo com o talento mágico de Jaafar Jackson. E há uma curiosidade que atravessa a tela: Jaafar não é apenas intérprete, ele é sobrinho de Michael, filho de Jermaine Jackson. Uma herança que não é só genética, mas também artística.
Faltou descrever as controvérsias
Ao privilegiar o brilho artístico de Michael Jackson, o filme deixa de lado aspectos essenciais para compreender sua trajetória por inteiro.
A exemplo das acusações de abuso infantil que marcaram sua vida pública. Em 1993, o caso envolvendo Jordan Chandler que terminou em um acordo civil milionário, sem admissão de culpa, e sem desdobramento criminal.
Também faltou aprofundar sua vida amorosa, incluindo os casamentos com Lisa Marie Presley e Debbie Rowe e a relação com seus filhos, Prince Jackson, Paris Jackson e Bigi Jackson.
Outro ponto ausente é a fragilidade de sua saúde e o uso contínuo de medicamentos, que culminaram em sua morte em 2009, durante os ensaios da turnê This Is It tour, causada pela administração do anestésico Propofol, por seu médico Conrad Murray.
Por fim, o filme poderia explorar melhor a simbólica Neverland Ranch, espaço que refletia tanto seu sucesso quanto a tentativa de reconstruir uma infância interrompida. Incluir esses elementos daria mais profundidade a um filme biográfico.
Mesmo assim, depois de assistir sair do cinema com uma sensação curiosa. Voltei para 1996. Para a pista quente do aeroporto, com cheiro de querosene vendo Michael passar diante dos meus olhos.
Márcio Wesley
Jornalista | MBA em comunicação |
Professor | DRT/BA 5469
A dois metros de Michael Jackson
Reviewed by Márcio Wesley
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abril 28, 2026
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