Minha jangada vai sair pro mar
Na praia de Itapoã, nas malícias do Rio Vermelho e nas ladeiras antigas de Salvador cresceu o menino Dorival, respirando o sal das marés e o som das rodas de samba.
Filho de Durval Henrique Caymmi, modesto funcionário público estadual, bom no violão e boêmio, e de Aurelina Cândida Soares Caymmi, a Dona Sinhá, que gostava de cantar, viveu intensamente cada instante da sua cidade e de sua gente.
Foi na serenata, na festa de bairro, no samba de roda e nos terreiros de santo que se alimentou da realidade e do mistério que mais tarde moldariam seu destino de poeta e cantor.
Ouvindo o LP de Dorival Caymmi, um requintado exemplar da coleção Música Popular Brasileira, edição de 1970, produzido pela Abril Cultural, somos imediatamente transportados para o universo poético do mar e da vida dos pescadores, tão presente na obra do mestre.
O encarte é um verdadeiro tesouro visual, repleto de fotos, desenhos e um texto que escancara a essência do compositor.
A canção Suíte dos Pescadores ecoa ainda hoje com sua melodia simples e profunda:
Minha jangada vai sair pro marVou trabalhar, meu bem quererSe Deus quiser, quando eu voltar do marUm peixe bom eu vou trazer...
Vida e família
Nascido em 30 de abril de 1914, em Salvador, Bahia, Caymmi cresceu cercado de música e cultura popular. Em 1940, casou-se com a cantora Adelaide Tostes, a Stella Maris, com quem viveu quase sete décadas. Tiveram três filhos: a nossa saudosa Nana (Dinahir, 1941), Dori (1943) e Danilo (1948), que herdaram o talento e se tornaram grandes nomes da música popular brasileira.
Carreira e legado
Em 1938, mudou-se para o Rio de Janeiro, levando consigo o som das praias baianas e a tranquilidade que marcaria sua obra. No Rio, sua carreira deslanchou com canções que se tornaram clássicos: O Que É Que a Baiana Tem?, Samba da Minha Terra, Marina, Saudade da Bahia, Rosa Morena, entre muitas outras.
Como apontou Jorge Amado em 'O Poeta e o Mar':
Caymmi leva meses e meses trabalhando cada uma de suas músicas e letras, ao sabor do tempo e da preguiça baiana e criadora. Mas Caymmi compõe sem descanso, mas sem pressa; vi nascer e crescer a maioria das suas composições famosas
Essa paciência criativa, aliada à profundidade de sua sensibilidade, fez de Dorival Caymmi não apenas um compositor, mas um cronista musical do povo do mar. Sua obra segue navegando pelas gerações, como uma jangada que nunca perde o rumo, levando no bojo a poesia simples e eterna que só ele sabia criar.
E, como as ondas que voltam sempre à praia, a música de Caymmi continua viva nos palcos e na voz de filhos, netos e bisnetos, guardando para sempre o som e o perfume do mar da Bahia.
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Márcio Wesley | DRT/BA 5469
Jornalista | MBA em Comunicação | Licenciado em Artes
Instagram @marciowesleycnery
Minha jangada vai sair pro mar
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setembro 30, 2026
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